16 outubro 2010

Carta ao Poeta


Não, meu pequeno poeta, não te agites demais por saber o futuro senão por frisar dia a dia da nossa empreitada em teus versos, feito lábios em eterno movimento. Tu serás grande, não eu, feita rainha em duração de mil dias para morrer vilã.
Se na senda com que me joguei fui vestida de amores e ouro, relembra a tua paixão por mim e honra sempre e por todos os anos aquela que de arroubo enfrentou o império cristão.
Sê forte no peito onde teu argumento arde e respira mil canhões por mim enquanto há tempo, porque nosso era o tempo das cordialidades.
Sim, meu pequeno poeta, eu não voltaria ao nosso amor, que dele, afinal, por mais saudades sinta, não poderia obter a chaga maior da vitória. Feito loba avancei sobre o precipício e me fiz águia verdadeira e nobre, no entanto, amor, meu amor fraterno por ti eu não descansei.
À força que me foi dada, derrubar cruzes e dissimular por entre os corredores do palácio, era o meu destino. Que por ele sim fui elevada, longe até o murmúrio das cobras eu comando.
Quase me roubaste.
Ainda que no futuro nos façamos novamente unidos não temas a solidão porque de aflição virá-te a pena certeira e todos nós que lutamos bravamente sem fraquejar. Semeamos a libertação.
Nenhuma fraqueza há depois de cinco séculos porque nem nos esquecerão o nome nem o nome máximo da provisão de paixões que ainda nos serão dadas a usar.
A minha coroa leva o teu nome como mais puro e fiel solitário.
Liberta-me de verso em verso e veja que eu retorno ao mundo, por nós.

Ana Boleña


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