07 março 2010

Carta ao Carrasco

Então, me encontraste na ratoeira, embora eu seja águia. Não espere de mim, portanto, a cabeça baixa. A cada dia da tua espera um dia a mais eu tenho de desgraça.
Longe de mim morrer nas mãos inimigas, eu aguardo o fio exato do teu aço, a força precisa dos teus braços sobre meu pescoço limpo.
E eu quero te olhar com meus olhos em suspense para que tu me enganes e parta em dois o que era carne. Querido carrasco, não te apavores quando meu breve riso tão próximo a ti balançar ao chão: é que te desejarei toda a paz no outro mundo.
Querido carrasco, não te deplores por indigno, és digno da rainha conduzir-te ao espetáculo desta gente toda que por fim chora, sempre chora ao encontro final.
Nas minhas últimas horas imagino a tua mão grossa e sei da tua vontade, antes mesmo de me tocares à morte, pegar no meu rosto tão docemente e pedir perdão. Mas tenha orgulho, porque na minha espera eu respiro o ar com as narinas cheias de força e ambição.
Ao se cumprir o sacrífcio serei eu no teu ofício o maior troféu de um homem como tu. Esta é a tua cabeça e se hesitares, por algum segundo, eu mesma lhe direi: faça.
Verás que meu dorso aprovará o teu olhar, o teu desejo e a tua paz.
Deixa a tua lâmina virgem para esta nobre e humilde rata.
Sua,

Ana Boleña
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