29 setembro 2009

Carta ao traído

Meu caro, caríssimo, pretendia que fosse diferente esta carta, como outrora tantas vezes ousei buscar consolo em teu colo e palavras, como outrora me encantei com teus versos e junto a ti dancei quantas vezes valendo mais que a confissão da alma.
Não vou pedir perdão por conta da gratidão erigida em mim, embora não consiga me sentir culpada e o grau de compreensão que tens, espero se mantenha sobre os atos cometidos.
Crime algum é pior que a traição, bem sei, e nela me fio ainda por conta de manter a integridade ao qual me submeti, saiba que de outro modo não poderia me furtar a usar-te no jogo insano em que, para manter o reinado, é necessário dos homens - e mulheres como eu - desapegarem-se de entes queridos.
Na tua forca chorarei baixinho, e por hora penso apenas em aliviar-te as dores nesta carta e com os alimentos que te envio à masmorra.
Sorria, meu caríssimo, pois bem sei do que me virá protelando apenas por pouco os meus inimigos.
Sabendo disto, neste tempo ainda de sobrar sanidades, a versão contrária do que antes eu era age mais drástica e muitas vezes incoerente.
Pouca lição tiro a não ser dar-me tempo maior enquanto morres e, quem sabe, ao constatar meu engano, poderás me encontrar num céu de névoas, que estes cristãos chamam de purgatório, mas em que minhas visões ainda bate o espírito nas pedras do castelo.
Egoísmo que admito, por que um falcão não caça junto às gaivotas,
Sua não mais amiga. Sei,

Ana Boleña
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