22 junho 2009

Carta ao apóstolo

Tu que me tiveste e possuíste de olhos sedentos e medo: afeição quem sabe? Não podes agora tocar a garganta imensa com que cravaste as tuas unhas.
No teu desejo insano me consumiste enquanto oravas e pedia perdão ao mesmo tempo... insano. Nem eu tenho palavras para te perdoar, dos crimes que eu não cometi e tu dissestes: - sim, foi ela!
Agora, enfrenta meus olhos que não são lágrimas escorridas senão o veneno que sai de mim.
Sonhas que terás ao menos um pesadelo no decorrer de tua vindoura vida, mas não estarei lá.
Sonhas que terás ao menos um pouco da memória e eu terei vivido por mil dias como rainha e mil anos como tempestade.
Verás raio e ouvirás quando retumbar a cruz sob os teus pés. Pobre apóstolo, nem sabes o quanto colocaste em risco a tumba onde selei o manto do descaso.
Ouso negar-lhe os olhos e ainda rir com orgulho, ouso, não por que seja vaidosa, nem mundana sou, eu sou a reforma.
Mil igrejas por cada dia e mil anos pelo áspero mas notório vapor me inflamo. E sobre ti, apóstolo, que teus pobres pensamentos a mim venham. Eu lamento.
Nunca, por certo tocaste em carne tão macia, ao me apreciar em tua hóstia fervida.
Mas eu soube e sabia. Não, o que me matará não será por sacrifício nem por vingança, agradeça a quem for, menos a deus, que tu traíste ao me tirar a roupa como os olhos de veado ao lobo.
Ainda que te arrependas por tamanha traição, será no meu sangue apenas que terás de mim um gole ou sabor.
Deverias ter me poupado, porque ter-me morta é não ter nada, ainda,

Ana Boleña

P.S.: Lembra apenas que sem mim a estátua não cairia.
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