03 novembro 2009

Carta ao poeta

Caro poeta,

Que os anos passem e tu crie meu nome em teus versos. Logo a sina me espera e a adaga. A vergonha já passara e mais ainda de um dia ter-me dito a olhos claros de sol de teu amor, tão fraterno e passional, capaz de enaltecer mais de uma rainha.
Se há homem pelo qual me arrependa não ter me deixado possuir, em troca da coroa, és tu e tu eu salvo do mesmo percurso.
Não sei se maior é a dor de me ver partida ao mundo ou, tendo partido, sou-te ainda mais bela. Não sei qual o êxtase dos poemas feitos, mas deveras o futuro em vida lhe trará fama e eu, de onde estiver, serei, por ti, lembrada.
Há que os historiadores certamente me evocaram por vadia e tantos outros nomes impróprios por todos os atos que nunca cometi. Só tu sabes amado por mim como irmão, mas não seria perversidade minha chamar-te irmão, já que é por crime de incesto o meu acerto final?
Confio que em tuas mãos e em teus versos eu possa, ao menos, ter outra fama.
Dos mais sinceros amáveis, dos mais devotos e leais, tens a minha eterna gratidão e igual lealdade.
Não pese o futuro e tirais os olhos de mim ao toque fervido da lâmina francesa. Minha garganta seja ao povo e meu espírito, nele o que há de bom, seja teu.
E se nos teus sonhos eu ainda for-te anfitriã, saiba, mais que a todos, que lá, nos teus sonhos, podereis fantasiar de mim o quanto quiseres da maneira que me ousares posto eu assinar embaixo,

Ana Boleña
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